Em resumo
- Copa Sub-20 na Polônia é primeiro torneio FIFA a aplicar obrigação de duas mulheres em comissão técnica, sendo uma como treinadora principal ou assistente.
- Regra aprovada em março de 2026 vale para todas as competições femininas e foi criada dentro do Programa de Desenvolvimento Feminino da FIFA para aumentar representatividade.
- Brasil terá impacto direto com a Copa 2027, que será sediada no país e precisará cumprir a mesma exigência em todas as seleções participantes.
- Camilla Orlando, técnica da seleção sub-20 brasileira, foi selecionada para o programa e apontou papel transformador do mentoria na sua confiança e planejamento.
A Copa do Mundo Feminina Sub-20, em andamento na Polônia desde 5 de setembro, marca um momento histórico para as competições internacionais. Pela primeira vez em uma decisão de escala global, a FIFA aplicou uma norma obrigatória que exige a presença de mulheres em posições estratégicas nos bancos técnicos. A medida representa um passo concreto na busca por igualdade de gênero nos ambientes de tomada de decisão do futebol.
Uma nova obrigação nas competições femininas
A determinação aprovada pelo Conselho da FIFA em março de 2026 estabelece que todas as equipes em torneios femininos —profissionais ou juvenis, seja em competições de clubes ou seleções— deverão ter pelo menos duas mulheres em suas comissões técnicas. Mais que isso, a regra torna obrigatório que uma delas ocupe o cargo de treinadora principal ou assistente técnica, vedando o cumprimento da cota apenas com profissionais em funções de menor alcance.
A abrangência da norma é ampla. Não se limita a uma federação ou confederação específica: todas as associações-membro da FIFA que participem de competições femininas devem cumprir a exigência. O alcance é tão extenso que a medida já terá impacto direto no Brasil, tanto no contexto imediato quanto em futuro próximo, pois a Copa do Mundo Feminina de 2027 será realizada em solo brasileiro e estará sujeita aos mesmos parâmetros.
O contexto que precedeu a decisão
Mulheres raramente nos bancos das Copas
A decisão da FIFA não surgiu do acaso. Um olhar para o passado recente das competições femininas revela um cenário de desproporcionalidade gritante. Na Copa do Mundo Feminina de 2023, disputada na Austrália, apenas 12 dos 32 treinadores participantes eram mulheres. O número não apenas reflete a sub-representação, mas também a sistemática falta de oportunidades para que mulheres ocupassem as posições mais altas nas estruturas técnicas.
O Programa de Desenvolvimento Feminino
A regra se insere em uma estratégia mais ampla da FIFA. O Programa de Desenvolvimento Feminino da entidade engloba diferentes iniciativas e ações voltadas para promover a progressão de treinadoras dentro das associações-membro. A nova exigência funciona como um mecanismo de força para garantir que a intenção de desenvolver mulheres no futebol se converta em realidade concreta, atuando onde as boas intenções sozinhas não obtêm resultado.

O Brasil e a comissão técnica da seleção sub-20
A seleção brasileira feminina sub-20 é um dos primeiros exemplos práticos da implementação dessa regra. Integrada à comissão está Camilla Orlando, técnica que desempenha papel fundamental na estrutura da equipe. Participante do programa de desenvolvimento da FIFA, Orlando descreveu sua experiência como transformadora. Segundo ela, estar no programa era um sonho, e ter sido escolhida para a posição representou uma oportunidade única. Ela apontou o papel essencial de seu mentor no processo, alguém que a auxiliou a ganhar confiança, estruturar seu planejamento e estabelecer conexões tanto com as jogadoras quanto com o restante da equipe técnica.
O desempenho da seleção brasileira na Copa Sub-20 reflete o trabalho dessa estrutura ampliada. A equipe chegou às oitavas de final, onde enfrentou os Estados Unidos em um jogo que demonstrou o nível técnico em disputa. Na fase de grupos, o Brasil também conquistou uma vitória expressiva sobre a Inglaterra, confirmando o favoritismo da seleção no torneio.
Os próximos patamares dessa transformação
A Copa Sub-17 no Marrocos
Enquanto a Copa Sub-20 segue seu curso na Polônia, a FIFA já está preparando as próximas competições sob os mesmos parâmetros. A Copa do Mundo Feminina Sub-17 será disputada em outubro no Marrocos e será o segundo torneio de importância global a implementar a exigência de mulheres nas comissões técnicas. A seleção brasileira já está classificada para o torneio marroquino e inicia sua campanha com o objetivo de conquistar o primeiro título da história nessa categoria.
Copa do Mundo 2027 no Brasil
Maior ainda é a relevância da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. O torneio não apenas aplicará a regra das mulheres nas comissões técnicas, como também ocorrerá em um contexto em que o país será responsável por estabelecer os padrões de organização. As seleções que disputarem o torneio terão de cumprir a exigência, e a Confederação Brasileira de Futebol terá a oportunidade de liderar pelo exemplo, estruturando sua própria seleção conforme os novos parâmetros.
O que muda na prática
A implementação da regra não é apenas uma questão de cumprimento formal de cotas. Ela força uma reflexão estrutural sobre como as seleções e clubes formam suas equipes técnicas e qual espaço é reservado para mulheres em papéis de decisão. Ao exigir que pelo menos uma das mulheres seja treinadora principal ou assistente, a FIFA garante que não se trata de posições meramente simbólicas, mas de funções com poder real sobre estratégia, preparação e desenvolvimento das jogadoras.
A medida também impacta o ecossistema de formação de técnicas. Profissionais como Camilla Orlando ganham não apenas a chance de atuar, mas um reconhecimento institucional de que suas competências são necessárias e valiosas. Isso tende a inspirar mais mulheres a buscar carreira técnica no futebol, sabendo que existem estruturas e oportunidades sendo criadas especificamente para elas.
Um caminho em construção
Embora a regra represente um avanço significativo, ela também expõe a distância que ainda existe. O fato de ser necessário uma obrigatoriedade para garantir apenas duas mulheres em uma comissão técnica demonstra como a exclusão foi sistemática e profunda. A medida não é o término de um processo, mas um ponto de partida. Seu êxito dependerá de como federações e associações a implementarão, se investirão na formação contínua de treinadoras, e se criarão ambientes onde mulheres possam ascender para além do cumprimento minimalista da cota.
A Copa Sub-20 na Polônia, portanto, não é importante apenas pelos resultados em campo. Ela marca o momento em que a FIFA e suas associações-membro reconheceram publicamente que a igualdade de gênero exige ação sistemática e não pode ser delegada à boa vontade. Para o Brasil, que aguarda pela Copa de 2027, a realidade dessa mudança já está em prática nas categorias menores, oferecendo um terreno para aprender, ajustar e construir um modelo que o país pode orgulhosamente exibir quando for anfitrião do torneio feminino mais importante do mundo.
Perguntas frequentes
Qual é a exigência exata da nova regra da FIFA sobre mulheres nas comissões técnicas?
A regra exige pelo menos duas mulheres em cada comissão técnica de torneios femininos, sendo obrigatório que uma delas ocupe o cargo de treinadora principal ou assistente técnica.
Quando foi aprovada e em quais competições se aplica?
A regra foi aprovada pelo Conselho da FIFA em março de 2026 e é válida para todas as competições femininas, profissionais ou juvenis, entre clubes e seleções, incluindo a Copa do Mundo de 2027 no Brasil.
Por que a FIFA criou essa medida?
A medida foi criada para aumentar a representatividade feminina em cargos de alto nível, como resposta ao fato de que na Copa de 2023 apenas 12 dos 32 treinadores eram mulheres. Ela faz parte do Programa de Desenvolvimento Feminino da entidade.