Em resumo
- Kerolin torna-se a jogadora brasileira mais cara em valor de transferência ao ser vendida para o Barcelona por 1,2 milhão de euros, superando a anterior marca de Amanda Gutierres.
- A atacante superou osteomielite na infância que quase causou amputação, uma suspensão por doping de dois anos e uma ruptura de ligamento cruzado, retornando sempre aos gramados.
- No Manchester City, Kerolin foi a primeira brasileira a conquistar o Campeonato Inglês Feminino e a Copa da Inglaterra, consolidando seu nome entre as melhores atacantes da Europa.
O Barcelona anunciou a contratação de Kerolin na terça-feira, após negociar a transferência da atacante junto ao Manchester City. O valor da operação chega a 1,2 milhão de euros, aproximadamente sete milhões de reais, com bônus previstos em contrato. Aos 26 anos, Kerolin assina vínculo com o clube espanhol até 2030 e se torna a jogadora brasileira mais cara da história em um negócio envolvendo uma atleta do país.
A transferência supera a venda de Amanda Gutierres do Palmeiras para o Boston Legacy, em outubro do ano anterior, por 1,1 milhão de dólares, equivalente a cerca de 5,89 milhões de reais na época. No futebol feminino do Barcelona, apenas Keira Walsh havia custado mais caro ao clube catalão: a inglesa chegou do Manchester City em 2022 por 460 mil euros.
Uma infância marcada pela superação
Antes de conquistar o futebol internacional, Kerolin enfrentou desafios que poucos atletas conhecem. Nascida em Bauru e criada em Campinas, a atacante tinha apenas 12 anos quando uma infecção quase mudou sua vida para sempre.
O risco de perder a perna
Jogando futebol nas ruas de Campinas com meninos da região, Kerolin começou a sentir dor intensa na perna direita. O diagnóstico foi assustador: osteomielite, uma infecção no osso que oferecia risco real de amputação. Ela passou três meses internada no hospital ao lado da mãe, vivendo a incerteza sobre o futuro de sua carreira ainda nem iniciada profissionalmente.
Em entrevista ao ge em 2022, Kerolin relembrou o período com clareza. “Para mim, naquela idade, foi assustador. Passei três meses em um hospital com a minha mãe. Eu não sabia o que poderia acontecer comigo, só queria estar com minha família. Minha mãe ia trabalhar e voltava para o hospital. Essa era a rotina dela todos os dias”, contou. A determinação da mãe foi decisiva para sua recuperação. “Ela que me deu força para continuar acreditando que iria sair daquela situação. Me disseram também que eu poderia ter perdido minha perna e que tive muita sorte. Isso me fez acreditar que eu poderia voltar a jogar. Nunca pensei em desistir, pois tinha que superar o medo e voltar a fazer o que mais gostava.”
De volta aos gramados
Recuperada da osteomielite, Kerolin defendeu o Guarani em 2016 e ganhou destaque na Ponte Preta um ano depois. O desempenho chamou a atenção do Corinthians/Audax, que a convidou para disputar a Libertadores Feminina. Aos 17 anos, ainda adolescente, Kerolin ergueu a taça do torneio continental, consolidando seu nome nas categorias de base do futebol feminino brasileiro.
A suspensão que interrompeu a ascensão
O sucesso com Corinthians/Audax abriu portas para o futebol mais competitivo. Em 2019, Kerolin foi contratada pelo Palmeiras para dar um salto de qualidade em sua carreira. Um mês após a transferência, porém, o futebol recebeu um baque: a atleta testou positivo em exame antidoping do ano anterior na disputa da Libertadores, ainda pelo Audax.
A substância detectada era GW1516, conhecida por aumentar os músculos de resistência e auxiliar na queima de gordura corporal. Kerolin foi suspensa por dois anos, afastada dos gramados quando deveria estar em sua melhor forma. Ela estava na pré-lista para a Copa do Mundo Feminina de 2019, na França, e viu o futuro da carreira ficar novamente em xeque.
Em 2021, quando a punição chegou ao fim, Kerolin retornou direto à seleção brasileira. A convocação para dois amistosos contra a Argentina foi resultado de uma conversa entre Marta e Pia Sundhage, que aprovou sua reintegração ao time nacional. Essa oportunidade marcou o início de sua carreira internacional, levando-a ao Madrid CFF e depois aos Estados Unidos.

A trajetória pelo futebol internacional
Os Jogos Olímpicos e a permanência na NWSL
Kerolin defendeu o Madrid CFF como seu primeiro clube fora do Brasil, mas logo buscou novas experiências. Em 2022, transferiu-se para o North Carolina Courage, na liga dos Estados Unidos, expandindo sua bagagem em competições de elite mundial.
No ano seguinte, enfrentou novo drama físico: uma ruptura no ligamento cruzado anterior do joelho direito a deixou afastada por mais de oito meses. Contra as adversidades, Kerolin correu contra o tempo para tentar manter o ritmo competitivo necessário para a seleção. A dedicação compensou quando ela defendeu o Brasil nos Jogos Olímpicos de Paris, onde conquistou a medalha de prata. Kerolin marcou um dos gols na vitória do Brasil contra a Espanha pela semifinal do torneio.
Primeira brasileira campeã da Premier League
Em janeiro de 2025, Kerolin deixou o North Carolina e assinou com o Manchester City, na Inglaterra, com contrato até 2028. Na temporada 2025/26, ela se tornou a primeira brasileira a conquistar o Campeonato Inglês Feminino com o City, além de ganhar a Copa da Inglaterra no mesmo período. Seus desempenhos no futebol inglês chamaram a atenção de grandes clubes europeus e consolidaram sua reputação como uma das melhores atacantes em atividade.
Barcelona fecha a contratação após negociações tensas
Nos últimos meses antes do anúncio oficial, negociações entre o Barcelona e o Manchester City estiveram em andamento intenso. O clube espanhol fez pelo menos duas propostas iniciais que foram recusadas pela equipe inglesa antes de chegar ao acordo final de 1,2 milhão de euros. A persistência do Barcelona reflete a importância atribuída à atacante para os projetos futuros da instituição catalã.
A contratação de Kerolin marca um novo patamar para o futebol feminino brasileiro em termos de valor de mercado. A operação reconhece não apenas o talento técnico da jogadora, mas também sua consistência em lidar com adversidades físicas e de carreira que teriam encerrado a trajetória profissional de muitos atletas em circunstâncias similares.
Peça-chave na preparação para 2027
Aos 26 anos, Kerolin vive a melhor fase de sua carreira profissional e assume posição de destaque como um dos pilares da seleção brasileira. No Barcelona, ela será fundamental na preparação para a Copa do Mundo de 2027, que será disputada no Brasil, oferecendo a oportunidade de competir em seu país de origem diante de sua torcida.
O contrato com o Barcelona até 2030 oferece estabilidade financeira e esportiva para que Kerolin continue contribuindo ao futebol europeu e à seleção canarinho durante seus anos mais produtivos. A trajetória da atacante deixa claro que o futebol feminino brasileiro produz atletas de nível mundial, capazes de competir e se impor nos maiores palcos da Europa, transformando desafios extremos em combustível para o sucesso.
Perguntas frequentes
Qual foi o valor da transferência de Kerolin para o Barcelona?
1,2 milhão de euros, aproximadamente sete milhões de reais, com bônus previstos em contrato. O vínculo vai até 2030.
Quais foram os maiores obstáculos que Kerolin enfrentou em sua carreira?
Aos 12 anos, osteomielite que quase resultou em amputação da perna; aos 24, suspensão de dois anos após testar positivo para GW1516; em 2023, ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito.
Qual foi o papel do Manchester City na carreira de Kerolin?
Kerolin se transferiu para o Manchester City em janeiro de 2025 e se tornou a primeira brasileira a conquistar o Campeonato Inglês Feminino e a Copa da Inglaterra na temporada 2025/26 com o clube.