Em resumo
- Angelim investiu R$ 1,5 milhão do próprio bolso em seu projeto com o time feminino R4, fundado em 2010 em Juazeiro do Norte.
- O R4 recebe apoio de amigos como Zico e Adriano Imperador através de rifas e eventos beneficentes que arrecadam recursos complementares.
- O time volta a disputar o Campeonato Cearense em 2026 após consolidar sua trajetória em competições regionais.
O futebol feminino amador no Brasil sobrevive longe dos holofotes. Sem transmissões televisivas, sem contratos milionários de patrocínio e sem cobertura de mídia nacional, times inteiros funcionam graças à determinação de uma pessoa. Ronaldo Angelim, ex-zagueiro do Flamengo que jogou em uma era diferente do futebol brasileiro, decidiu que sua vida após os campos de elite seria dedicada justamente a este futebol invisível: o das meninas de cidades pequenas que não têm acesso a estrutura profissional.
Um ex-jogador e sua missão com o futebol feminino
Ronaldo Angelim, ex-zagueiro do Flamengo, encontrou em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará, sua missão fora dos campos de elite: transformar uma cidade pequena em polo de desenvolvimento do futebol feminino amador. Há 16 anos, em 2010, Angelim fundou o R4, inicialmente como projeto social. O que começou com uma ideia simples evoluiu: a equipe ganhou registro profissional e se consolidou como uma referência regional no futebol feminino.
De projeto social a time registrado
O caminho do R4 desde sua fundação reflete a determinação de Angelim em criar oportunidades para meninas da região. O que era apenas um projeto comunitário tornou-se uma equipe oficializada, com participação em competições regionais. Esta transformação não aconteceu por acaso: foi resultado de anos de trabalho, investimento pessoal e crença na capacidade de atletas femininas da região de competir e vencer. Hoje, o R4 existe como time profissionalizado — não no sentido de estar na série A, mas na formalidade legal e administrativa que um clube regulado exige.
R$ 1,5 milhão investidos do próprio bolso
Em vídeo publicado nas redes sociais, Angelim revelou o custo real de manter seu projeto: já investiu mais de R$ 1,5 milhão do próprio bolso para sustentar a equipe feminina. Este número não é apenas um detalhe numérico; representa o quanto um ex-jogador está disposto a gastar para viabilizar o futebol feminino quando faltam políticas públicas e patrocínios privados estruturados.
O investimento cobriu tudo que mantém um time funcionando: salários de jogadoras, transporte, alimentação, equipamentos, uniformes e, principalmente, infraestrutura. Angelim não apenas patrocina partidas; ele literalmente constrói as estruturas onde o time treina e joga. Para colocar isto em perspectiva: R$ 1,5 milhão é o que muitos times do Brasileirão feminino recebem em patrocínios anuais. Aqui, tudo vem de uma pessoa.
A realidade do financiamento amador
Angelim foi direto sobre o cenário que enfrenta: “Como meu projeto é 100% legalizado, alguém dá alguma ajuda? Dá nada!” A frase resume a dificuldade que projetos de desenvolvimento feminino enfrentam fora dos holofotes do Brasileirão. Sem apoio institucional significativo, a missão recai sobre ombros individuais. Confederações, federações estaduais e secretarias de esporte frequentemente focam recursos em seleções e campeonatos de elite. O futebol feminino amador fica na sombra.

Como o projeto se mantém: rifas, amigos e dedicação pessoal
Se R$ 1,5 milhão saem do bolso de Angelim, como ele consegue completar o financiamento mês a mês, pagando jogadoras e mantendo o time operacional? A resposta está em um modelo criativo de arrecadação que mistura criatividade e amizade.
As rifas de R$ 0,50 e eventos beneficentes
Angelim organiza rifas com valores acessíveis (R$ 0,50 por bilhete) para manter o caixa operacional. Mas o grande foco está em eventos beneficentes onde craques comparecem para arrecadar valores maiores. Em um desses eventos, Zico, lenda do Flamengo e do futebol brasileiro, participou diretamente. O primeiro evento beneficente arrecadou R$ 120 mil; o segundo, R$ 20 mil. Estes valores, embora importantes para um projeto regional, cobrem apenas frações do que sai do bolso do ex-zagueiro mês a mês.
O apoio dos amigos do Flamengo
Ronaldo Angelim não está sozinho nesta jornada. Zico aparece pessoalmente em Juazeiro quando viaja para eventos e contribui para as ações beneficentes. Adriano Imperador, outro ídolo do Flamengo, também oferece seu nome e presença. A torcida do Flamengo participa das rifas, movimentada pela história de um ex-jogador que não abandonou o futebol, apenas mudou de endereço. Estes não são apoios institucionais ou contratos de patrocínio; são relações humanas que mantêm vivo um projeto que deveria ter estrutura corporativa e nunca ter dependido tanto de uma pessoa.
Infraestrutura construída para o futebol feminino
O investimento de R$ 1,5 milhão não desaparece em custos correntes. Angelim investiu pesadamente em infraestrutura, algo raro em projetos regionais de futebol feminino.
Campos edificados e suas medidas
Angelim construiu campos com medidas apropriadas para o futebol amador. Um dos campos, edificado em 2025 graças a valores arrecadados no evento com Zico, possui medidas de 28 metros por 50 metros. Construir um campo do zero exige não apenas terreno; exige muros, sistemas de drenagem, grama ou grama sintética, e marcações regulamentares. O primeiro evento arrecadou R$ 120 mil apenas para fazer os muros — não para a grama, não para os vestiários, apenas para os muros. O segundo evento trouxe R$ 20 mil. O restante, sempre, continua saindo do bolso de Angelim. Esta é a matemática de um projeto que deveria ter apoio estruturado.
Investimento em estrutura como legado
Este investimento em campos deixa um legado permanente. Quando Angelim sair ou já não puder continuar com este ritmo de investimento, a infraestrutura fica. As meninas de Juazeiro do Norte terão campos onde outras regiões têm apenas esperança e vontade. Este é um tipo diferente de investimento: não é consumível, não desaparece com o fim de um mês ou de uma temporada. É patrimônio construído. Poucas cidades no interior do Ceará têm campos com medidas regulamentares exclusivamente para treinar mulheres.
Títulos conquistados e trajetória do R4
Nos 16 anos de existência, o R4 não apenas sobreviveu; conquistou títulos que comprovam sua qualidade técnica e sua consolidação regional.
A equipe venceu o Campeonato Barbalhense, prova regional onde os melhores times da zona convergem para competir. Conquistou também o torneio ASSEAJUNO (Associação de Apoio ao Esporte Amador de Juazeiro do Norte), que carrega na sigla a própria essência do projeto de Angelim: apoio ao esporte amador da região. Além destes, o time acumulou vitórias em diversos campeonatos amadores da região. Estes troféus não ganham destaque em jornais nacionais nem em redes sociais de grande alcance, mas representam o desenvolvimento técnico consistente e a consolidação do R4 como uma força no futebol feminino regional.
Retorno ao Campeonato Cearense em 2026
O R4 volta a disputar o Campeonato Cearense em 2026. A palavra “volta” indica que o time já participou desta competição estadual em períodos anteriores, afastando-se depois para focar em competições regionais menores. Este retorno marca uma escalada: o time está novamente pronto para competir em nível estadual.
O Campeonato Cearense é um passo rumo a maior visibilidade estadual. Mesmo que a equipe não tenha grandes chances de conquistar o título em sua primeira temporada de volta, a participação já significa reconhecimento de que existe um time feminino organizado, profissionalizado e capaz de competir no nível estadual. É um alargamento do horizonte: de campeonatos municipais e regionais para o estado inteiro.
Perguntas frequentes
Quem é Ronaldo Angelim e o que é o R4?
Ronaldo Angelim é um ex-zagueiro do Flamengo que fundou o R4, um time feminino profissionalizado em Juazeiro do Norte, Ceará, em 2010 como projeto social.
Quanto Angelim já investiu no R4?
Angelim investiu mais de R$ 1,5 milhão do próprio bolso para manter a equipe, incluindo salários de jogadoras, equipamentos e construção de infraestrutura como campos regulamentares.
Como o R4 se mantém financeiramente?
Através de rifas, eventos beneficentes com participação de amigos como Zico e Adriano Imperador, e investimento contínuo de Angelim, que organiza ações para arrecadar recursos.