Em resumo
- Cláudia, goleira do Cruzeiro, enfrenta Corinthians nas quartas do Brasileirão numa missão de quebrar tabu de cinco decisões perdidas.
- Com sete convocações e campeã da Copa América 2025, a goleira de 24 anos começou sua carreira relutante à posição aos 16 anos em Pérola d'Oeste.
- Inspirada por Lorena, uma das melhores goleiras da Seleção, Cláudia participará do ciclo para a Copa do Mundo 2027 que será no Brasil.
Aos 24 anos, Cláudia vive um momento que resume sua jornada: entre a resistência inicial e a paixão construída. Goleira do Cruzeiro, ela se vê diante do maior desafio da temporada — um mata-mata contra o Corinthians pelas quartas de final do Brasileirão, nesta segunda-feira às 19h15. Mas há mais em jogo que apenas uma partida. Por trás dessa decisão está a história de uma menina de Pérola d’Oeste que nunca quis ser goleira e hoje sonha em representar a Seleção na Copa do Mundo de 2027, no Brasil.
De Pérola d’Oeste à Posição que Questionava
O encontro inesperado com a golaria
Natural do interior do Paraná, Cláudia cresceu em uma pequena cidade onde o futebol não era exatamente uma carreira óbvia para uma menina. Aos 16 anos, uma professora de educação física a chamou para os Jogos Escolares do Paraná. O pedido era simples, mas a resposta foi imediata: não. “No começo, questionei, duvidei. Achei que ela estava meio doida”, relembra sobre o convite para atuar como goleira. Naquela época, Cláudia acreditava que seu lugar era na linha, defendendo a bola com os pés, não nas mãos.
O trabalho e o futebol lado a lado
Aos 16 anos, Cláudia trabalhava no supermercado da cidade enquanto ainda era aluna. O futebol era, naquele momento, uma possibilidade de ter algo a mais — não apenas um jogo, mas uma possível carreira. A resistência à posição de goleira, porém, persistiu mesmo após aceitar o desafio da professora. “Eu não me sentia goleira. Quando fui para o Toledo, meu primeiro clube, fiquei o ano todo ali me adaptando, aprendendo a gostar da posição, porque eu não gostava”, confessa. Mas a vida em Toledo marcou uma virada: foi o ano em que Cláudia decidiu abandonar o supermercado e se dedicar apenas ao futebol, em 2018.
Os Anos de Aprendizado em Toledo e Além
Treinos sem preparador de goleira
Os primeiros tempos como goleira profissional foram duros. Em Toledo, Cláudia enfrentava um ambiente improvável: sem um preparador especializado e sem uma sequência de treinamentos específicos para a posição. “Fiquei duas temporadas no Toledo. Eu não tinha preparador de goleiro, eu não tinha uma sequência de treinamentos específica. Foi um processo duro para mim”, descreve. Essa falta de estrutura, paradoxalmente, forjou uma mentalidade. Cláudia teve de aprender sozinha, testando seus limites e acreditando em seu potencial mesmo quando as condições não eram ideais.
Coritiba como transição
De Toledo, Cláudia seguiu para o Coritiba, ainda em busca de consolidação. A jornada era lenta, mas consistente. Ela se cobrava muito — uma característica que mantém até hoje — e reconhece que queria “atropelar o processo”. No entanto, entendia que o amadurecimento não podia ser apressado. Cada clube representava um passo, cada partida uma lição.
Grêmio e a Inspiração em Lorena
Encontro com uma referência viva
O ponto de virada chegou no Grêmio. Lá, Cláudia encontrou uma jogadora que mudaria sua visão sobre a golaria: Lorena, uma das melhores goleiras do futebol feminino brasileiro e ex-integrante da Seleção. “Minha referência mesmo foi a Lorena. Tive a chance de estar na Seleção com ela. Tenho muito carinho por ela. É uma das melhores goleiras hoje. Ela é a minha referência”, afirma. Conviver com alguém de seu reconhecimento, porém, trouxe consigo uma nova pressão. Cláudia se viu obrigada a questionar novamente sua capacidade: será que conseguiria chegar ao nível daquela que admirava?
Amadurecimento acelerado
Passou um ano e meio no Grêmio “lutando, aprendendo a acreditar em mim, treinando para aprender as coisas”, como descreve. Era um processo de transformação interna: de uma menina que duvidava da posição a uma goleira que começava a enxergar seu futuro. A presença de Lorena não era apenas um desafio, mas também um espelho — prova de que goleiras mulheres podiam alcançar grandes voos na Seleção, algo que antes parecia distante.
Juventude, Fluminense e a Chamada da Seleção
Longe de casa, perto dos sonhos
Do Grêmio, Cláudia seguiu para o Juventude e depois para o Fluminense. Foi neste último que a menina de Pérola d’Oeste ficou longe de casa pela primeira vez de forma significativa. Filha única do Evandro e da dona Marines, sentiu o peso da distância. Mas seus pais, que a acompanharam de perto, passaram a sonhar junto com ela — algo que hoje se transformou em combustível. “Adoro ver as crianças. O quanto eles se inspiram hoje na gente, veem ser possível uma pessoa de uma cidade pequena chegar numa seleção, chegar num time grande”, reflete Cláudia sobre o impacto que sua trajetória tem em Pérola d’Oeste.
A Seleção Brasileira e a Copa América 2025
A chamada para a Seleção chegou com sete convocações já confirmadas. Cláudia participou do ciclo de preparação e foi campeã da Copa América em 2025. “Nem acredito às vezes. Aconteceu tudo tão rápido”, confessa sobre essa ascensão. Como goleira, acreditava que a Seleção era mais difícil de alcançar — um preconceito enraizado no futebol feminino, onde a posição ainda era menos reconhecida. Mas conseguiu não apenas chegar, mas também vencer: “Todo atleta quer chegar à seleção. Eu já tive a chance de estar lá, de ser campeã da Seleção, que é algo muito importante jogando.”
O Tabu do Cruzeiro Contra o Corinthians
A sequência que leva ao mata-mata
Cláudia chegou ao Cruzeiro e, nas últimas quatro partidas, ganhou uma sequência importante. Essa continuidade é crucial agora que o Cruzeiro enfrenta seu maior desafio sazonal: o Corinthians, nas quartas de final do Brasileirão. O que torna esse confronto especial é o tabu que assombra a Raposa. O Cruzeiro nunca eliminou o Corinthians em um mata-mata — foram cinco decisões anteriores, todas com desvantagem para os mineiros.
A magnitude do confronto
“Considero que todos os jogos a partir de agora para a gente são finais. É uma equipe muito difícil. Sempre foram as maiores campeãs, não tem como negar isso”, avalia Cláudia sobre as Brabas. O Corinthians é, historicamente, um adversário superior em títulos e experiência, mas isso não apequena a determinação da goleira. “A gente também tem condições de chegar lá e vamos lutar para isso. Eu estou bem confiante, tem uma expectativa muito boa com a equipe”, afirma com a certeza de quem aprendeu a acreditar em si mesma durante toda sua carreira.
Copa do Mundo 2027: O Sonho em Casa
O ciclo de preparação
Enquanto o foco está no mata-mata do Brasileirão, Cláudia mantém seus olhos também na Copa do Mundo de 2027, que será disputada no Brasil. Ela está integrando o ciclo de preparação da Seleção para o torneio — um sonho que brilha em seus olhos, mas com os pés firmemente no chão.
Do presente para o futuro
“Preciso fazer o meu trabalho bem feito aqui no Cruzeiro. Se eu fizer meu trabalho bem feito, eu vou chegar lá de novo”, diz Cláudia, centrando a energia no que está ao seu alcance hoje. A lógica é simples mas poderosa: cada grande performance no Cruzeiro é um degrau em direção à Seleção, e cada vez que a Raposa avança, ela avança também. A menina de Pérola d’Oeste que uma vez questionou se deveria ser goleira agora segue um caminho traçado pela própria determinação, inspirando gerações de crianças que veem nela a prova de que sonhos, sim, saem do interior do Paraná.
Perguntas frequentes
Qual é a trajetória de Cláudia até o Cruzeiro?
Natural de Pérola d'Oeste, no Paraná, Cláudia começou como goleira aos 16 anos após chamado de uma professora de educação física. Passou por Toledo, Coritiba, Grêmio, Juventude e Fluminense antes de chegar ao Cruzeiro.
Qual é o tabu do Cruzeiro contra o Corinthians?
O Cruzeiro nunca eliminou o Corinthians em um mata-mata. Foram cinco decisões envolvendo os dois times, todas com desvantagem para a Raposa.
Qual é o histórico de Cláudia na Seleção Brasileira?
Cláudia tem sete convocações pela Seleção Brasileira, foi campeã da Copa América em 2025 e participa do ciclo de preparação para a Copa do Mundo de 2027, que será no Brasil.